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segunda-feira, 10 de novembro de 2008

CORPOS CADENCIADOS E MOTORIZADOS!

Quando tenho tempo, gosto de ir num desses parques que ficam estão nos centros urbanos. O modelito é sempre o mesmo: uma pista de cooper, algumas quadras e umas arvorezinhas para compensar o desmatamento que dá lugar aos carros, pistas e concretos armados.
É muito legal andar nestes lugares! Gosto de observar as caminhadas e as corridas. Aqui em Brasília, a coisa é mais surrealista. Aliás, Brasília é uma cidade onde impera a idéia de "cada um prá si". Aqui não existe interação natural e espontânea. Não existe o imprevisto ou acaso. Tudo é programado e planejado, inclusive o lazer, a caminhada, o riso, o choro e o contemplar. Aqui, tudo é determinado pela lei da previsibilidade. Tudo se repete num cenário de prédios disfuncionais e desumanos.
Contudo, é legal aventurar-se num parque público. O cenário é o mesmo: todos chegam de carros. Aqui andar a pé é coisa de indigente, pobre o trabalhador de periferia. O chique é andar de carro e desfilar para os demais carros. Andar de carro dar tesão e alucinação.
Andar a pé só se for em caminhadas programadas. para isto, faz-se necessário comprar uma indumentária, tais como um short azul e tênis branco. O tênis não pode ser sujo ou surrado! Tem que está límpido, com uma etiqueta retumbante para mostrar os corpos disciplinados, ora lightizados ou dietizados.
O andar é cadenciado e emudecidos. Aqui se tentar verbalizar um "bom-dia" a outrem ou uma "boa-tarde" está sujeito a ser classificado de doido ou herege. Bom dia em Brasília significa invasão de privacidade. O bom-dia é algo enfadonho e inconveniente. Se quiseres sorrir ou emitir alguma voz. faz-se necessário combinar um grupo de afinidade com bastante antecedência.
Adoro observar os semblantes. Em pleno fim de semana, as caras continuam carrancudas, preconceituosas e etiquetadas. Cada um busca mostrar o seu figurino esportivo.
O parque urbano tem destas coisas. O parque urbano é o parque do encontro do indíviduo com a pista, sua roupa e seu o caminhar, outrora perdido dentro dos carros.
Tempo bom foi aquele que andavámos sem ser cronometrados. Tempo bom é aquele que tínhamos as pernas para deslocarmos sem ter que se preocupar com flanelinhas, pedágio, estacionamento.
O pneu substituiu a nossa perna durante a semana e só nos devolve no final de semana quando precisa-se queimar algumas gorduras nos corpos resultado da "carrolatria".