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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

SANTA ETIQUETAS, PERDOAÍ AS NOSSAS INCOMPOSTURAS!!!!

Sou de origem pobre e estatura mediana! Quando você assume algum cargo na vida pública, você é convidado até para festa batismal. Por dois anos, exerci o cargo de Secretário de uma Comissão na Câmara dos Deputados. Choveu de convite. Tornei-me importante e desejado. Certo dia, fui convidado para um almoço pelo adido cultural de uma determinada embaixada estrangeira em Brasília.Para o meu desespero existencial, fui almoçar num daqueles restaurantes ultra-chic. Lá cheguei, com calafrio, sem saber como deveria agir numa mesa, dominada por formalismo e alta dosagem de ritual. Aliás nesses lugares chicS, lembram-me, muito bem, um ritual dos Monges Tibetanos. Cada movimento e virar corporal tem uma linguagem quase indecifrável.Lá estava aquele afrodescendente, com sua nova cara de classe média.Entrei, sem saber se sorria efusivamente ou se escondia o sorriso entre dentes. Sentei à mesa e não sabia o que fazer com os meus cotovelos e as mãos. Suava mais do que corredor de maritona da Avenida Paulista. O medo era grande, só de pensar o que aconteceria se o meu cotovelo escorregasse para baixo.Fiquei a pensar! Será que viria o prato junto com o cotovelo? ou se a tolha, num toque de mágica, saíria, sem cair as coisas? Quase pedi ao garçom um lexotan!!!Fiquei perdido perguntando o que fazer nesse momento que eles acham prazeirosos e apetitosos. Roguei a máxima de minha inteligente, pedindo ajuda ao meu cérebro.De repente!! tan...tan... tan, resolvi aprender, olhando discretamente para outros que esetavam ao meu redor.Empolgado, comecei tudo de novo depois, após ter saído e simulado o atendimento do meu o celular.Terminado a minha simulação no celular, retornei puxando a cadeira, num sonoridade do violino.
Sentei-me e movimentei o prato para a distância recomendada entre você e ele. Até então, colocava o prato quase debaixo de minha boca, achando o máximo a tamanha facilidade que teria. Era só levantar o garfo verticalmente e pronto, direto para a boca.
Com exigência etiquetal, NUNCA MAIS! tive que distanciar o prato, pegar o alimento, levantando-o verticamente e depois, horizontalmente, deixar o garfo movimentando em direção á minha boca faminta, ao som imaginário do Chopin.
Ufá! Depois de minutos de tortura, lá fui eu tentar masticar aquela comida intraduzível do cardápio. Soube, depois, que o mastigar tinha que ser cadenciado.Mastigar mexendo, bruscamente, as mandíbulas, JAMÉÉÉ!!!
Ah! Antes de introduzir a comida entre-dentres, olhei para a mesa, deparando-me com inúmeros garfos enfileirados horizontalmente. Desesperei-me! Não sabia o que fazer com aquele arsenal de talhares.
Parecia a mesa do RAMBO!
Nunca dantes vi tantos garfos de tamanhos diferentes. Descobri que cada um, tem a sua própria função etiquetal.
Já na hora de pegar folhas e legumes quase cometi a heresia de usar o mesmo garfo, tamanho família. Num olhar reprovável dos meus pares, apontaram seus dedos, encolhidos entre ternos. Entendi qual daqueles garfos deveria usar.
Ufa! Agora posso ficar mais relax!! Ledo engano!Lá veio o pedido de bebida. Lascou! Disseram que tem saber como pegar o copo. Desisti era muita informação numa cabeça de menino periférico!
Abri mão de beber.
Foi melhor, afinal beber na refeição só faz criar barriga e ter que gastar em academias de ginástias.
Fiquei 2 horas naquele restaurante chic sem dar uma boa risada escancarada. o Meu corpo travou na cadeira e só sai depois de ir embora.
Confesso-lhe que fiquei todo travado. Acabei de comer aquela minúscula refeição e fui lá tentar chamar o garçom.
Travei e embalsamei-me de novo!
Como chamá-lo? Levantando a mão? Se é a mão, qual delas? a esquerda ou a direita? Disseram que isto é falta de educação e profanador.
Continuei a minha cruzada de como fazer. Viro o corpo? de que lado? Ou balanço a cabeça harmoniosamente, olhando para eles e aguardando algum sinal messiânico.
Como deveria me comunicar com os garçons?
Dizem que não se deve gritar ou chamá-los em alto-voz.
Pensando nesta advertência, acho que seria mais recomendável que a comunicação nos restaurantes, pudesse usar o método LIBRAS - língua dos surdos e mudos.
Razoável para um ambiente sem vozes e risadas.
Conversei muito com o adido cultural, sem lembrar o seu teor.
Claro que acabei esquecendo toda a a nossa conversa que tivemos.
Afinal, aterrorizado e com o medo de cometer algum gafe, fiquei toda a conversa respondendo baixinho: rã.. rã e atento, unicamente, ao comportamento dos convidados.
Nunca vou esquecer deste momento sacrossanto; deste meu primeiro estágio de novo membro venerável da classe média.
Após as despedidas, saí do restaurante e fui direto ao fisioterapeuta para destravar a minha coluna e o meu cerebro. Tava tudo dominado pela etiqueta!!!
De tanto esforço físico, reincorporei o meu corpo original!
Para vingar-me, fui noutro restaurante mediano e bati um prato de feijoada só de raiva.
Ah! como é difícil a vida de noviço classe média!
Jamais imaginei todo este rigor e formalismo alimentar.
Jamais imaginei que o formalismo da mesa é mais importante do que valor dos nutrientes postos no prato.
É isto aí. Nós etiquetamos a vida e depois fazemos terapia para recuperar a espontaneidade humana, outrora perdida no cardágio estrangeirizado e na monástica mesa.
Fui!!! Vou comer, com toda a minha vontade, um pastel e calda de cana numa decadente pastelaria chinesa, para recuperar o meu cérebro que ficou, por algumas horas refém dos etiquetados e "perfumados".

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